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01.10.2020

Amor nos tempos do covid-19


Ao longo do período da pandemia do novo coronavírus, muitos casais estão tendo que enfrentar os desafios de conviver com a proximidade ou a distância total: conciliar rotinas, dividir espaços e tarefas, estar com o outro o tempo todo ou recorrer às mais diversas ferramentas virtuais para reinventar uma relação agora à distância.

Mas, e os solteiros? Como eles estão lidando com o isolamento? Afinal, além de restringir as formas espontâneas por meio das quais as pessoas costumam se conhecer, a pandemia também tem afetado uma forma popular usada atualmente para se relacionar: os aplicativos de relacionamento. Como forma de atrair usuários neste momento, alguns destes aplicativos até liberaram certas funções que antes só estavam disponíveis para os assinantes da versão paga, como “viajar” pelo mundo e ter acesso aos perfis de usuários de qualquer lugar escolhido. Nesse contexto, os fatores que levam ao uso dos aplicativos de relacionamento vêm mudando em comparação aos fatores da época pré-Covid-19.

Essas foram algumas das questões abordadas pelas alunas Ana Thereza C. Caron Cassou e Marina Zminko Kurchaidt em uma pesquisa sobre o comportamento de usuários de aplicativos de relacionamento. Conduzida durante os meses de maio e junho de 2020 para a disciplina de Estatística Descritiva e Pesquisa Quantitativa do curso de Psicologia da FAE Centro Universitário, a pesquisa foi disseminada nas redes sociais, de modo aleatório, obtendo um total de 2.469 respostas, das quais 71% foram de mulheres, com os homens representando 29% dos respondentes¹. Ressalta-se que pesquisa tem nível de confiança de 95% e margem de erro de 1,96%, para mais ou para menos.

Cerca de 88% das pessoas participantes disseram já ter utilizado ao menos uma vez algum aplicativo de relacionamento. Foi verificado que o aplicativo Tinder é o preferido, com 97,8% de adesão, seguido de longe pelos aplicativos Happn e Badoo, com 43,8% e 19,3%, respectivamente. Antes da pandemia, os usuários dos aplicativos pretendiam conhecer pessoas parecidas, fazer novos amigos, receber elogios e flertes, ter um relacionamento sério e fazer sexo casual. Agora, passar o tempo, sair do tédio e apenas conversar são reportados como os principais motivos.

Curiosamente, somente 12,2% dos respondentes se encontraram com alguém que conheceram no aplicativo durante o surto do novo coronavírus. Mesmo buscando esses aplicativos para conhecer novas pessoas e conversar neste momento, os usuários dizem que suas interações mais profundas e significativas com os matches diminuíram em relação ao período pré-pandemia.

Os números também refletem os dias atuais, em que as interações sociais têm acontecido cada vez mais nos meios digitais. Mais da metade dos respondentes, 57,4%, diz sentir mais facilidade para flertar usando os aplicativos de relacionamento do que pessoalmente. Dentro do recorte de idade, não surpreende que os menores de 20 anos – geração mais conectada e que cresceu junto com a tecnologia digital – ficaram com a maior porcentagem, totalizando 65,1% dos respondentes. Já no recorte de orientação sexual, os números chamam a atenção, pois 72% dos respondentes homossexuais dizem ter mais facilidade, em contrapartida aos 58,1% dos bissexuais e 53,8% dos heterossexuais, dados que possivelmente contêm relação com as características de uma sociedade heteronormativa e patriarcal.

E, apesar de a maioria dos respondentes afirmar que acha mais fácil flertar virtualmente, esses usuários de aplicativos de relacionamento se dizem insatisfeitos com a ferramenta: 96,9% deles já desinstalaram os aplicativos, mas, destes, apenas 5,6% disseram ter deletado por ter alcançado seus objetivos. Ainda assim, os usuários sempre retornam: 49,9% deles já desinstalaram os aplicativos de 2 a 5 vezes, seguidos de 23,8% que já perderam as contas do número total. É quase unânime que o principal motivo para desinstalação foi que o uso do aplicativo perdeu a graça, fator que ficou em primeiro lugar na pesquisa, contando com 71% dos respondentes.

Esse desânimo também aparece como obstáculo na hora do primeiro encontro. O principal motivo para os usuários decidirem não encontrar pessoalmente seu match virtual é que a preguiça do encontro é maior do que o interesse em conhecer o crush. Em segundo lugar, 48,1% dos participantes disseram que, apesar do crush parecer legal em um primeiro momento, ao conhecê-lo um pouco mais, sentiram-se incomodados com suas opiniões e valores morais. O terceiro motivo mais citado, com 46,5%, foi descobrir que o crush havia mentido e, na verdade, já estava em outro relacionamento. Outro fator também importante, que apareceu com 44,6%, foi o medo de encontrar alguém que não se conhece pessoalmente, motivo mais relevante para as mulheres (14,3%) do que para os homens (9,1%).

O estudo demonstrou que os usuários de aplicativos de relacionamento ainda se mostram desinteressados no uso das plataformas durante a pandemia do Covid-19. A questão continua em aberto se, após a pandemia, as pessoas encontrarão novas formas de utilizar os aplicativos de relacionamento ou se darão uma nova chance às formas antigas e espontâneas de conhecer pessoas.

¹ O processamento dos dados realizado observa a média proporcional, de forma que a desproporcionalidade no percentual de respondentes no quesito identidade de gêneros não interfere nos resultados colhidos.





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