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03.10.2016

As cinco atitudes do líder integral


Confira o artigo do professor José Vicente B. de Mello Cordeiro
Confira o artigo do professor José Vicente B. de Mello Cordeiro
Vivemos em uma era de modismos e a gestão das organizações está longe de ficar alheia a esse fato. Saímos de uma era de líderes autocráticos, carismáticos e centralizadores, para o novo mundo da liderança democrática. Presenciamos o líder visionário, o líder servidor, o líder inspirador, o líder “executor” e assim por diante. Contudo, neste artigo quero abordar as características do líder integral, que age de forma a exercer seus diferentes papéis (gestor, líder, pai ou mãe, esposo, esposa, etc.) sem deixar de ser a mesma pessoa, coerente com seus valores e crenças. Em vez de focar em comportamentos, vou enfatizar justamente aquilo que vem antes do comportamento: as atitudes.

Então vamos às cinco atitudes de um líder que pretende ser integral. Para defini-las, baseei-me, entre outras abordagens, nas três atitudes da liderança consciente de Fred Kofman (apresentadas no seu livro “Conscious Business”) e nas sete virtudes aplicadas à liderança de Kolp e Rhea (apresentadas no livro “Character-Based Leadership”), mas também na minha experiência como gestor, consultor e facilitador de programas de desenvolvimento de lideranças. São elas: Propósito; Accountability; Integridade; Humildade e Veracidade.

PROPÓSITO

O ponto de partida da liderança integral é o Propósito, que equivale para nós, seres humanos, à missão das organizações. Assim como a missão organizacional deve ser a razão da existência da organização, o nosso propósito deve ser a nossa razão da existência.

Uma vez definido o seu propósito, sua atitude deve ser a de constantemente questionar se seus pensamentos e ações estão alinhados. E isso dá origem a duas ações. Primeiro, lembrar que muitas das atividades aparentemente chatas que desempenhamos são parte essencial do propósito. Em segundo lugar, o propósito deve servir como um guia de suas iniciativas de melhoria em todas as áreas de sua vida.

ACCOUNTABILITY

Quando partimos para a ação guiados por nosso propósito, precisamos desenvolver uma atitude de “Accountability”. Eu poderia tentar traduzir esse termo como “Responsabilidade Incondicional”, como fez Kofman, mas prefiro deixar em inglês em função de seu significado mais amplo do que o de “Responsabilidade”.

A atitude que precisamos desenvolver é a de sermos total e integralmente responsáveis por nossas decisões, tenham sido elas conscientes ou não. Aliás, “responsabilidade” vem do inglês response-ability, ou seja, habilidade de resposta. Um líder integral tem de saber quando realmente tem condições de assumir a responsabilidade por um determinado resultado. Sempre que os desafios superam nossa capacidade de resposta (e a de nossas equipes), temos de ter a coragem de dizer “não”! Essa é uma das questões fundamentais para garantir o processo de mudança de “vítima das circunstâncias” para o de “senhor de seu destino”.

INTEGRIDADE

Qual deve ser o nosso limite no que se refere a assumir responsabilidades? Nossos valores! Um líder integral tem de ser íntegro. E a integridade implica agir de acordo com nossos valores e os valores das organizações em que atuamos.

Líderes íntegros têm como principal característica o conhecido “walk the talk”: eles agem de acordo com seus valores e só exigem dos outros coisas que eles próprios praticam. Agir com integridade transfere o foco dos resultados para o processo. A ação torna-se uma verdadeira obra de arte, pois muitas vezes não é tão simples conciliar todos os valores envolvidos. Quando cultivamos as atitudes de “Accountability” e “Integridade”, criamos um ambiente propício para a confiança mútua.

HUMILDADE

Quando falamos de humildade e pedimos que a maioria das pessoas mencione o seu oposto, na maioria das vezes ouvimos coisas como “riqueza” ou “abundância”. Não é desse significado de humildade que falamos aqui. A humildade, enquanto atitude, é o oposto da arrogância. O líder integral deve ser humilde no sentido de considerar que não é dono da verdade em relação às diversas áreas de conhecimento envolvidas no seu papel.

A atitude de humildade equivale a estar permanentemente aberto a aprender com as situações que se apresentam, especialmente com as opiniões divergentes. Como menciona Fred Kofman, significa buscar o aprendizado mútuo em vez do controle unilateral. Uma atitude de humildade impede que nossos interlocutores ergam as barreiras que dificultam a comunicação efetiva. Sendo assim, trocamos o “não confiamos em você porque sua equipe não entrega” por “não sei se podemos confiar em você neste projeto porque nas últimas vezes sua equipe atrasou a entrega”.

VERACIDADE

Por fim, a atitude mais difícil de todas, a que exige mais prática e esforço, mas que, felizmente, começa a acontecer naturalmente como consequência da prática das quatro atitudes anteriores: Veracidade. Agir com veracidade significa ser sincero consigo mesmo e com os outros.

O ponto de partida para a veracidade é a aceitação da realidade como ela é, algo fortemente relacionado com a autossinceridade. Muitas pessoas questionam a atitude de aceitação como sendo o oposto da busca pela melhoria e pela inovação, mas o que ocorre é justamente o contrário. Quando aceitamos as coisas como elas são, liberamos espaço em nossas mentes e energia em nosso corpo e espírito para tratar dos problemas que nos afligem e afligem nossas empresas.

Reflexão

Para finalizar, deixo aqui um convite a você, que exerce o papel de liderança em sua organização, em sua família ou entre seus amigos: cultive de forma reflexiva e questionadora estas atitudes de forma intencional, antes de agir com os outros e mesmo sozinho (lembre-se de que a atitude precede o comportamento)!

No início, pode parecer que isso vai complicar as suas tomadas de decisão, mas com o tempo você verá que ocorre justamente o contrário. As coisas vão tornando-se mais e mais simples, aumentando de forma sensível sua capacidade de tomar boas decisões e atuar na sua implementação.

José Vicente B. de Mello Cordeiro é diretor dos cursos de pós-graduação da FAE Business School, doutor e mestre em Engenharia da Produção.



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